Saúde

Uso de Correntes, Vale a Pena?

21 de agosto de 2018

author:

Uso de Correntes, Vale a Pena?

Infelizmente o uso de correntes é bem comum e encarado por muitos como uma maneira prática e barata de contenção de psitacídeos como papagaios, araras e cacatuas. Gostaríamos hoje de levar você leitor a reflexão, sobre os seguintes pontos:

É ético Acorrentar? Será que temos o direito de tirar de forma total a liberdade de um animal? Por que escolher uma espécie que tem ASAS, colocar uma corrente dura, incômoda, limitadora em seu pé?

Você sabia que as aves têm Direitos? E que como tutores devemos garantir suas 5 Liberdades?

Alguns quando abordamos o tema respondem: “É melhor acorrentar do que perdê-lo!” –  Nós aqui pensamos: É melhor procurar meios seguros como viveiros, telar a casa, para sair fazer uso de guias peitorais como o The Aviator Harness com sistema de amortecimento de tranco ou caixas de transporte do que colocar a vida e saúde da ave em risco.

Você sabia que ocorre muitos acidentes graves, mutiladores e até letais por uso de correntes?

Convidamos o Médico Veterinário Alexsandro Machado para nos trazer um caso clinico.

 Graduado em Medicina Veterinária – Faculdade Pio Décimo (2005), Especialização em Microbiologia pela Universidade Federal de Sergipe (2007); Mestre em Ciências da Saúde pelo Núcleo de Pós graduação em Medicina – UFS (2010) e Doutorando pelo Programa de Ciências Veterinária da UFRPE. Atualmente professor das disciplinas clínica de animais silvestres e ornitopatologia da Faculdade Pio Décimo. Coordenador do grupo de estudos de animais silvestres (GEPAS) da Faculdade Pio Décimo, responsável pelas atividades de extensão, pesquisa e rotina clínica do Hospital Veterinário Dr. Vicente Borreli da Faculdade Pio Décimo. Conselheiro suplente e Membro da comissão Regional de Meio Ambiente do Conselho , Regional de Medicina Veterinária de Sergipe, triênio 2016-2019.

” Olá, o meu nome é Ronaldo! Sou um papagaio verdadeiro e hoje vim contar uma história que aconteceu comigo e que acontece muito com outras aves criadas como pets. Certo dia, eu estava passeando pela minha gaiola, mas me descuidei e acabei caindo, e como eu tinha uma corrente presa a minha perna para evitar que eu voasse, acabei fraturando a minha perna. Por causa disso precisei ser atendido pelo doutor Alexsandro Machado da AVES Veterinária, onde fiz exames de raio-x para identificar minha fratura, e passei por um procedimento cirúrgico que colocou meu ossinho no lugar. Hoje em dia eu já consigo andar novamente, mas não uso mais correntes, porque elas são um perigo muito grande não só para mim, mas para todas as aves, e aprendi que o correto é ou ir no veterinário para que eu tenha a asa aparada, ou ficar dentro da minha gaiola fechada, para evitar acidentes como este e outros que possam acabar acontecendo se eu for criado solto.

Hoje em dia é cada vez mais comum o uso de gaiolas abertas com correntes para manter aves criadas como pets convencionais. Porém, o uso destas correntes fixas aos seus pés favorece a ocorrência de traumas, que poderão causar lesões cutâneas, musculares e esqueléticas, podendo provocar fraturas expostas (ossos expostos), isquemia (falta de circulação sanguínea no membro) e necrose (morte dos tecidos). A depender da gravidade e do local da fratura, podem ser utilizadas talas ou bandagens, e se a fratura for muito grave, pode ser necessária a realização de cirurgia com a aplicação de pinos intramedulares, placas, ou outras técnicas cirúrgicas ortopédicas. O prognóstico da ave depende da gravidade da lesão, do seu pronto-atendimento, da perda sanguínea e das condições de saúde do paciente.

As radiografias acima pertence a um paciente atendido no AVES que costumava ficar preso por uma corrente na sua gaiola durante anos, o que acabou ocasionando uma fratura em seu tibiotarso. Para a correção desta lesão, foi aplicado um pino intramedular e um fixador externo em seu membro. Hoje em dia o paciente já caminha novamente, não mais fazendo uso de correntes.”

Contato: M.V Alexsandro Machado – Site – www.avesveterinaria.com.br

 

Notas do Diário de Um Papagaio

 

Vamos nos antecipar a alguns comentários recorrentes:

  1. Uso a anos e nunca aconteceu nada! – Por isso o nome é “acidente”, não é feito para acontecer, mas pode acontecer, pode passar anos sem acontecer até um dia acontecer, e os motivos são muitos: Desequilíbrio com queda, susto, ataque de outro bicho e mais uma infinidade de situações que podem ocasionar o acidente.
  2. Mas a corrente é curta, ele não vai voar alto! –  O que causa a fratura é a força contra um ponto de resistência, não a altura.
  3. Aves de Rapina usam equipamento nos pés há milênios – Há inúmeras diferenças físicas e comportamentais entre as duas espécies (aves de rapinas e psitacídeos) podemos citar:

-Os equipamentos para aves de rapina são largos e macios, confeccionados em couro e usados nos dois pés, distribuindo assim o impacto. Porém é necessário lembrar que ao contrário dos psitacídeos que tem pernas e pés curtos e mais frágeis (foram projetadas para escalar e manipular alimentos), os pés e pernas das aves de rapina são longos, fortes e bem desenvolvidos para suportar predar e carregar por longas distâncias presas bem pesadas. O uso da luva pelo falcoeiro não é somente para proteção contra arranhão, mas também para suportar a força do aperto das garras, são realmente fortes, porém, bom lembrar que não são indestrutíveis, o uso de bons equipamentos é necessário para segurança e conforto deles.

-Diferente do equipamento de falcoaria (largo e macio), o anel da corrente colocada no pé do papagaio é rígido e fino, não há espaço para expansão da energia (força) que localizada num único ponto é ampliada causando a ruptura.

-Não é dificil deslocar ossos e ligamentos  da estrutura frágil de um psitacídeo, basta que o tutor segure os pés e o mesmo se  assuste e com força tente voar, este esforço de retenção pode causar lesões sérias e dolorosas.

-No aspecto comportamental, ao contrário das aves de rapina, se colocar um equipamento de couro, linhas, cordas ou tiras de tecido nos pés de um psitacídeo ele irá bicar até arrancar, como também, alguns em alto grau de stress podem mutilar os pés tentando tirar a corrente.

-Ainda no aspecto comportamental, aves de rapina, como outros predadores, passam horas imóveis, ficar muito tempo relaxadas e inertes até o momento de sair para caçar, trata-se de um comportamento natural da espécie, logo, passar horas com em seus poleiros com o equipamento é bem confortável para elas, ao contrário dos psitacídeos como papagaios, araras, cacatuas e outros que gastam mais de 60% do tempo em alguma atividade, seja voando, escalando, manipulando alimentos, se limpando, enfim, são aves muito ativas, restringir a espaços minúsculos ou acorrenta-los vai totalmente contra sua natureza.

  1. Se você pensou: Que exagero! – Esperamos que lembre, quantas vezes viu ou presenciou um psitacídeo que quebrou ossos da perna caindo simplesmente dentro da sua própria gaiola ou se debatendo, engalhando seus pés entre grades, seus ossos são frágeis, não foram feitos para correntes, também não é aconselhavel prender no pé guias, fitas, cordas ou coisas do gênero.

Bem, espero que este artigo sirva para você que estava pensando em usar, rever sua decisão e você que usa, repensar essa prática.

Seu compartilhamento pode salvar uma ave dos perigos da  corrente!

error: Conteúdo protegido