Tráfico de Animais Silvestres

Sou Kaka fui trazida para ser brinquedo de criança!

28 de julho de 2016

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Sou Kaka fui trazida para ser brinquedo de criança!

O Tráfico de animais silvestres começa longe do cidadão comum, para nós, parece mais uma realidade bem distante e que não nos toca. Essa saga cruel, dolorida, devastadora, começa com indivíduos cheios de crueldade, absorvidos pelo câncer da ganância, e como todo tráfico, seja ele de drogas ou de vidas, em seu caminho enreda em sua teia perversa diversas pessoas, algumas são iguais, apenas encontraram um semelhante seu com a mesma crueldade característica, outras por falta de instrução e extrema pobreza são enredadas nessa teia para ajudar a organização (diga-se a terceira maior do mundo em movimentação financeira), são pessoas simples que caçam os ninhos e repassam a preços ridículos que não chegam a garantir um prato de comida, mas esta ali, devem pensar “eu preciso” e o dono da natureza é Deus”. Outro enredado nessa teia perversa é o cidadão comum que erroneamente, ou talvez quem saiba, fruto de uma sociedade culturalmente com valores distorcidos, moral elástica e que não admite-se criminoso, mas se torna, ao comprar ou pegar um animal de origem ilegal, neste ato comete o crime, sendo ativamente co-autor, porém deixa essa conta exclusivamente para o “traficante” negando aos demais sua responsabilidade.

Entre tantas vítimas do tráfico de animais, vamos hoje contar a história da Káka um lindo papagaio galego:

O papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops) é uma espécie de  papagaio endêmico do Brasil, está no momento em alto risco de extinção, o adulto tem plumagem verde-clara, com barriga e cabeça de cor amarela, e bico rosado. Medem entre 25–27 cm de comprimento e pesam em torno de 300 gramas.

Relato dos tutores:

*Usaremos a Sigla DUP quando fizermos intervenção no relato.

A Kaca foi mais uma vítima do tráfico de animais silvestres, tendo também uma história de vida triste. Ela (tratamos como sendo uma fêmea) chegou até nós em fevereiro de 2010. Foi resgatada de uma família que não tinha a mínima condição de ter um pássaro, 5 (cinco) crianças na casa  que tinham a Káca como um brinquedo.

 DUP: Por sua vez, a ave chegou a essa família através de um carreteiro, que ao invés de trazer de presente um brinquedo convencional para seus filhos, trouxe para péssimo exemplo e caráter educacional zero, uma ave silvestre, oriunda do tráfico para fazer vez de brinquedo para as crianças, é de criança que se ensina, muito mais pelo exemplo que pelas palavras. Infelizmente muitos caminhoneiros ainda contribuem com esse comércio fazendo o transporte de de aves ilegais escondidas em sua carga.

 Acredita-se que era muito mal tratada, pois os primeiros retratos dela mostram uma ave sem a cor que tem hoje, com a asa machucada e sangrando, provavelmente na tentativa sem conhecimento ou prática para aparar as asas.

              

 Kaca era uma ave  com tristeza nos olhinhos, as reações que ela tinha ao perceber uma mão perto eram de um pássaro sofrido, judiado, desconfiado e com muito medo. Não se sabe ao certo de onde ela veio (provavelmente da Bahia), mas como toda vítima de tráfico foi tirada de seu habitat a força, transportada nos confins de uma caixa escura, sem nenhum cuidado, pode ter passado fome e sede, sentiu saudade do seu ninho.

Estas pessoas não pensaram nas necessidades e cuidados que uma ave exige. Graças a Deus conseguimos convencê-los de que podíamos ficar com ela, e é claro que teve um custo.

 DUP – A Problemática da coisificação da Vida ainda é algo muito forte e impregnado em nossa cultura. Infelizmente, é comum termos escala de grau de importância para vidas de maior e menor valor, se este escalonamento ocorre no âmbito da vida humana, imagina o que ocorre com a vida animal. Em nossa sociedade eles são tratados como seres inferiores, e que podem viver de nossos restos. É como se ignorássemos que tem cognição, que sentem medo, saudade, solidão, tristeza. Que basta um cantinho na área de serviço da casa, abarrotado de produto de limpeza, resto de coisas e roupa suja, e qualquer lugar serve pra eles.Dezenas de pessoas circulam em casas espalhadas nesse país, entram e saem, e incrivelmente não se perguntam se é correto mesmo uma ave viver num poleiro numa placa de metal de 50cm por 20 ou 30 anos, algumas vezes acorrentados. As pessoas estão cegas ou insensíveis?

  Trouxemos ela e tratamos de curar suas feridas, físicas e psicológicas. Até hoje ela tem certo receio de chinelo, ataca quem está usando (decerto davam chineladas nela), não gosta muito de banana (ela chegou toda suja, grudenta do que parecia ser banana), e não permite que outras pessoas a toquem, façam carinho, só comigo que ela dá o pezinho, me deixa beijar e coçar a cabeça.

É uma ave muito carinhosa, inteligente e fala poucas palavras: “Aaa Káca”, “Kaquinha”, “caquético”, pergunta “han, ué?”. Dá-se muito bem com o Lorinho (amazona aestiva), estão sempre um ao lado do outro, ela não gosta de segurar os alimentos, geralmente o Lorinho segura e ela come junto com ele, é muito curiosa com os objetos (chaves, tampinhas de pet).

 A cor das penas estão como devem ser, mas as penas da asa de voo que veio machucada, até hoje não crescem direito, contudo está bem recuperada.

DUP – Algumas vezes, o aparo das penas das asas, quando feito por pessoa inexperiente pode ocasionar lesão permanente, desse modo, as penas não voltam mais a nascer.

 Tem um hábito que muitas vezes a vemos fazendo sozinha: DESFILAR! Ela adora desfilar, quando houve um som repetitivo, ela encolhe a pupila, abre as asas, deixa o rabo em forma de leque e caminha desfilando.

Abominamos o tráfico de animais, e o que fizemos foi para salvar uma vida, foi um resgate. Somos os tutores da Káca, somos responsáveis por ela, e resgataríamos todos os animais que sofrem nas mãos de pessoas se, com isso o tráfico acabasse.

Esse foi o relato da história de kaka, hoje, anos depois do resgate, a ave apresenta sequelas fisícas e comportamentais  do que sofreu, e ao ler, é impossível não se perguntar, quantas mais ainda vão passar por isso ou por coisa pior.  Muita gente acredita e vê esse problema como puramente financeiro, não posso comprar do criadouro, e quero um, passo por cima de tudo e compro do traficante, ou tiro do ninho. Como ignorar a agressão, como ignorar as questões morais, éticas e humanas?  O homem está perdendo sua humanidade? Que tipo de pessoas estamos nos tornando? 

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