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Viajando com uma Arara


Resenhas Críticas

Sempre que recebia material sobre a viagem de Bella, lembrava logo das inúmeras e recorrentes vezes que as turmas do “Aves não devem sair para passear” ou “Não gosto das pessoas que saem com a ave para se exibir, aves não devem passear na rua”, sempre estavam a declarar sua posição contrária a essa prática de sair de casa com a ave.

                            

Como uma coisa puxa a outra, nas minhas reflexões, comecei a pensar se não era extremamente injusto com a ave, além de roubar dela seu direito natural ao céu, o humano sempre insatisfeito, não está também, querendo limitar o tamanho da gaiola ao tamanho de nossa casa, ou sendo mais clara, queremos imputar-lhes um regime de prisão domiciliar.

Fiquei tentando entender o porquê uma ave não deve sair, e ok, até entendo que uma rua cheia de carros, barulhos e perigos seja um ambiente bem hostil para a ave, e muito diferente do natural para ela, porém, nos dias atuais representa perigo também para os humanos. Também me pergunto de onde o humano tirou que nossas casas são locais seguros e adequados para elas habitarem?

Estatisticamente falando (há quem odeie estatística), o que os fatos nos mostram é que a maioria dos atendimentos de aves, são de psitacídeos e por acidentes domésticos: Choques elétricos, queimaduras, pisadas com fratura, afogamento, esmagamento, intoxicação......

Há bem da verdade, não foram criadas para nosso ambiente, e uma parcela bem pequena e privilegiada de aves, tem tutores que investem em locais adequados, confortáveis, seguros e cognitivamente estimulantes.

Então, hoje, não sou contraria a prática de passeios com as aves, sou a favor de antes de tudo se respeitar a vontade delas, tem aves que vão adorar sair, ver movimento, outras pessoas, sons e cores. Outras aves mais retraídas e medrosas, que tenham tido pouco estimulo de contato com outras pessoas e ambientes, ou puramente por uma questão de personalidade mais tímida, vão preferir ficar em um ambiente mais controlado e seguro como sua casa, sempre a decisão de sair ou não deve ser da ave, além do bom senso do tutor em avaliar o tipo do local, tempo e hora dos passeios.

Vamos agora a resenha da viagem...

Bella é uma linda Arara Canindé, nascida em cativeiro, criada por um casal, ela chegou na família em um momento especial para toda mãe, a hora que os filhos humanos ganham “asas” e vão dar seu primeiro voo longe do ninho, o casal então tinha só Bella para cuidar e amar.

Neste contexto, grande parte das atividades como passeios ao parque, praça, praia ou na padaria a arara ia junto, assim se acostumou desde cedo a circular com os tutores entre ambientes diversos e pessoas estranhas.

 Aqui gostaria de fazer uma observação importante na criação

Temos que considerar sempre, que para cada decisão que tomamos, temos consequências, então, há de se pensar que: Ao criar uma ave muito mansa, aceitando com docilidade o afago e contato de estranhos, o tutor melhora a sociabilidade dela e potencial de interação com os humanos, porém a deixa muito vulnerável, é uma ave que facilmente é usurpada de casa ou em caso de fuga vai ser facilmente pega por estranhos, muitas vezes mal-intencionados.

 

Bem, a família que mora em Salvador, precisava ir até Santa Catarina, mas não seria uma viagem rápida, e sim, 30 dias fora de casa. Aqui começa a resenha, 30 dias longe de Bella seria impensável, ela é cuidada só pela família, deixar em um hotel por melhor e mais responsáveis que sejam, sempre é um risco no sentido da mesma acabar adoecendo de saudade. Assim, conversando com o médico veterinário, que inclusive já tinha feito uma aventura semelhante, ele respondendo a pergunta dos tutores sobre a possibilidade de leva-la, aconselhou que seria essa a melhor decisão a ser tomada, desde que garantidos um transporte e estadias seguro. Vamos resumir essa parte do planejamento da viagem em dicas para quem deseja viajar com sua ave:

 -Faça uma bateria de exames na ave afim de evitar surpresas no caminho, principalmente para quem como esse casal decidiu fazer o trajeto de carro. Avião também é uma boa opção, rápida e segura, hoje, no Brasil a Latam e a Gol são as duas empresas que trabalham com o transporte de carga viva.

-A caixa de transporte é um item obrigatório, bem como tem especificações tanto pelas empresas aéreas, como também pelo órgão que emite a GTA (GUIA DE TRANSPORTE ANIMAL).

-A GTA é um documento que pode ser emitido em veterinários credenciados ou na secretaria de agricultura da sua cidade. Quando retirado no médico veterinário a consulta esta inclusa, para retirar na secretaria de agricultura, ela vai pedir o atestado de saúde de um médico veterinário. É válida por trajeto, no caso de Bella o órgão deu validade de 5 dias em Salvador e na Volta em Santa Catarina emitiram com validade de 8 dias, a validade é definida pelo órgão de acordo com o trajeto da vigem.

  • Ao pensar na caixa de transporte, é importante pensar nos seguintes quesitos: A ave deve poder dar um giro completo, instalar um poleiro baixo, colocar material absorvente no fundo para reter os dejetos, local para água e alimento, abertura para ventilação.

-Se vai fazer a viagem por meio terrestre, deve-se planejar tempos para paradas para alimentar a ave. Estudar o trajeto é necessário em caso de viagens longas, precisa-se verificar hotéis, pousadas e restaurantes que aceitem animais, e deve-se informar a que animal se refere.

-Algumas frutas como maça, acerola e laranja são excelentes para serem consumidas no trajeto. Uma garrafa com água quente para papinha é muito prática, basta misturar com o pó e a ave terá uma refeição rápida, nutritiva e fácil de preparar. No caso de Bella os tutores levaram 3 caixas de ração estrusada, uma porção de farinhada, castanhas do Pará, frutas e brinquedos. Pela manhã cedo e antes de dormir, era feito uma papa com ração triturada e frutas para que ficasse bem alimentada, a ração ficava livre na caixa de transporte. Importante mencionar que a ave não perdeu peso e se manteve ativa e saudável durante toda viagem até seu retorno.

-Pausas para tomar água e esticar as asas são recomendadas.

-Algumas aves enjoam em viagem, consulte seu veterinário qual o remédio recomendado caso precise na estrada, é bom ter ele e já saber a posologia e modo de usar para sua ave.

 Não vamos nos estender em detalhar cada pedacinho de uma viagem que com certeza marcou Bella e sua família humana, bem como todos que foram tocados pela simpatia e graça dessa ave, nem incentivar que seja feita a todo custo, porém, sempre que puder, que seja de forma planejada e segura. O intuito mesmo ao fazer essa matéria é levar você tutor ou demais curiosos a reflexão do que é a criação pet, e tentarmos achar equilíbrio nessa relação, afim e acima de tudo, para termos uma convivência saudável com eles. Vamos deixar para apreciação o registro de tantos momentos, tantas experiências que essa arara teve, de forma positiva e com certeza enriquecedora, inclusive no aspecto cognitivo, já que ela, diferente de tantos que só tem como referência de mundo uma gaiola/viveiro ou o limite da casa do tutor. Bella conheceu humanos de cores, tamanhos e cheiros diferentes, lugares e árvores que não existe no seu bioma, visitou uma escola, interagiu com crianças, visitou a APAE e interagiu com pacientes especiais, conheceu outras casas, aves, hábitos e clima diferentes, e como dizer que psicologicamente isso não é rico?

                                                                                                       

Outro aspecto importante é sempre respeitar a vontade da ave, Bella ficou bem, tranquila e feliz, e ao voltar para casa, dá claro sinais, sempre que os tutores vão sair, que gostou e quer repetir a dose, não pode ver ninguém indo para o carro que a mesma faz festa para ir junto. Se sua ave não se sente confortável em passear ou estar entre estranhos, respeite, dê a oportunidade dela de ter e fazer escolhas. Que possamos ter mais tutores que sejam primeiramente responsáveis, mas também comprometidos com o bem-estar animal, sejam companheiros, amigos e parceiros, que tenha uma cabeça aberta e jovem para buscar desafios e novas experiências nesse caminho de convivência humano/ave ainda tão desconhecido. Um pontapé inicial pode ser o julgar menos, escutar mais, buscar informações seguras e pôr em prática o espirito crítico para nossas reflexões.

                                                                                       

Agradecemos a Eurenice Uchoa, tutora da Arara Bella por nos confiar  sua história.

Se você tem uma opinião a respeito, ou uma história parecida para contar, nos mande através do email: contato@diariodeumpapagaio.com.br


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Autor


Adna Dantas

- Redatora e Administradora -